O início do título acima é cópia de um artigo publicado em 04/09/1996 por Isaías Raw, cientista, professor e diretor do Instituto Butantan. O texto registra o espanto do autor, após décadas de atuação na ciência, com o fato de grande parte das pessoas desprezar o conhecimento científico, guiando suas ações por crenças e hábitos arraigados. Alguma semelhança com a terceira década do século XXI?
Nas conversas com profissionais de sustentabilidade e análise ESG sempre surgem as preocupações com a dificuldade de implantar estratégias e projetos de sustentabilidade nas organizações. Como ponto comum, a distância entre palavras e ações, bem como a dificuldade em convencer o C-Level da contribuição para o desempenho organizacional. Não é tarefa fácil convencer alguém a se levantar de uma poltrona habitual.
Se você já enfrentou esse desafio, não está sozinho. Ao longo das últimas décadas, diversas áreas de pesquisa indicaram que é mais fácil obter um conhecimento novo do que adotar um novo comportamento. Lembra daqueles planos de final de ano que nunca são executados?
Para buscarmos caminhos para implantação bem-sucedida desses projetos e estratégias, vale a pena um breve passeio no túnel do tempo, confrontando os desafios atuais com a geração de conhecimento ao longo dos anos.
Em 2004, foi lançado o relatório “Quem se importa vence”publicação conjunta do The Global Compact e um grupo relevante de instituições financeiras. Com 59 páginas, no 3º parágrafo surge a sigla ESG, que viria a se popularizar tempos depois. No início de 2005, foi a vez do World Economic Forum contribuir para aproximar a comunidade financeira da agenda da sustentabilidade, com o lançamento do estudo “Integração do Investimento Responsável”. Quase ao final de 2006, coube ao Reino Unido divulgar o relatório “A Economia das Mudanças Climáticas: A Revisão Stern”, abordando algumas das principais questões que ainda dominam os debates sobre mudanças climáticas.
Acelerando no túnel do tempo chegamos a 2023, encontrando, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, o artigo “A biomassa global de mamíferos selvagens”que aponta o forte desequilíbrio de biodiversidade no planeta. Mais alguns passos e estamos em janeiro de 2025, com o relatório “O Relatório de Riscos Globais”, do World Economic Forum, listando os 10 principais desafios da economia mundial para os próximos 10 anos, 7 deles relacionados a questões ESG.
Com tanto conhecimento disponível há décadas, por que não alcançamos estágios mais avançados do desenvolvimento sustentável global? Será que o Prof. Isaías Raw tinha razão no seu artigo?
A geração de conhecimento que orienta mudanças segue, porém, com intensidade. Ao final de 2025, a EY Parthenon lançou o estudo “Impact Edge: ESG como alavanca de valor no agronegócio”, mostrando caminhos para um dos mais importantes setores da economia brasileira avançar na agenda ESG e melhorar o desempenho empresarial. Na área acadêmica, a revista Economia Ecológica começou 2026 com a edição especial “Biodiversidade e finanças: Risco, divulgação e dupla materialidade”, reforçando as conexões entre sustentabilidade e finanças.
Como, então, podemos reduzir o gap entre aquisição de conhecimento e mudança de comportamento? Reunindo observações de profissionais especializados, com quem pude interagir ao longo dos anos, alguns caminhos podem ser identificados, entre eles:
- Pelo lado das instituições de ensino e pesquisauso de linguagem adequada para comunicar ao público os resultados dos estudos, traduzindo-os para a vida das pessoas. Por exemplo, na área de mudanças climáticas é mais fácil o cidadão comum entender o risco de intensificação de desastres naturais do que o cálculo da emissão de gases de efeito-estufa;
- Para os agentes reguladores, lembrando que mudanças estruturais costumam gerar ganhadores e perdedores, propor regras que possam ser implantadas gradualmente, respeitando diferenças setoriais e de capacitação entre os agentes econômicos. Exemplos podem ser observados nos desafios de transição energética e de redução do desmatamento em áreas de agropecuária. Ninguém se anima a trocar as certezas de curto prazo pelas dúvidas de longo prazo, ainda mais se a discussão for apresentada como um filme de mocinhos e bandidos. Os perdedores resistirão fortemente às mudanças, se forem abandonados à própria sorte;
- Ó setor empresarial pode trazer contribuições através da autorregulação e da implantação de novos modelos de negócios. Os “clusters” empresariais ajudam a lidar com desafios de grande porte e complexidade. Esses agrupamentos compartilham recursos e conhecimentos, gerando sinergias que impulsionam a inovação e a consolidação de cadeias de valor. Essa união de empresas de diferentes setores aparece, por exemplo, no desenvolvimento e disseminação do SAF, importante nas ações contra mudanças climáticas. Já na autorregularão, um bom exemplo pode ser o acordo dos bancos para disciplinar financiamentos em áreas de desmatamento;
- Os meios de comunicação podem traduzir o complexo ambiente tecnológico, regulatório e organizacional para uma linguagem acessível ao grande público. Jornalistas especializados costumam ter a habilidade de simplificar a apresentação de questões complexas. Importante perceber que demonizar certos atores dos processos sociais pode prejudicar o debate, fazendo com que esses grupos adotem posturas defensivas.
Cada um de nós tem papel fundamental nesse processo. Todos conhecem a frase “Infeliz o país que precisa de heróis”, atribuída ao escritor Bertolt Brecht. Não teremos um mundo melhor se não for esse o nosso desejo e se não forem para ele os nossos esforços.
Fácil falar ou escrever, bem mais difícil fazer. Convido você a dar a sua contribuição a essa viagem no túnel do tempo. A próxima parada será na estação “Futuro”.
Função Celsus Lemme é é professor de Finanças e Sustentabilidade do Coppead da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutor em Administração, com concentração em Finanças, e Mestre em Engenharia de Produção pela UFRJ, ele é presidente e membro de Conselhos Consultivos de organizações internacionais e nacionais. Na iniciativa privada, Gerente Geral de Planejamento e Análise Financeira da Aracruz Celulose (atualmente, Suzano Papel e Celulose), com atuação de 1981 a 1994. Anteriormente na Companhia Souza Cruz (atualmente, British American Tobacco Brasil).
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