A inflação de março veio acima do esperado por economistas e analistas de mercado e reforça a cautela com cenário para cortes da Selic, avaliam economistas.
Divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na sexta-feira, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acelerou de 0,70% em fevereiro para 0,88% em março. É a maior taxa para o mês desde 2022 (1,62%) e ficou acima do teto das projeções colhidas pelo Valor Dataque variavam entre 0,47% e 0,82%, com mediana em 0,76%.
Seis das nove classes de despesas registraram aceleração na passagem entre fevereiro e março: transportes (de 0,74% para 1,64%); alimentação e bebidas (de 0,26% para 1,56%); artigos de residência (de 0,13% para 0,51%); vestuário (de 0,16% para 0,46%); despesas pessoais (de 0,33% para 0,65%); e comunicação (de 0,15% para 0,19%).
Por outro lado, foram registradas taxas menores em habitação (de 0,30% para 0,22%); saúde e cuidados pessoais (de 0,59% para 0,42%); e educação (de 5,21% para 0,02%).
Três quartos da alta de março ficaram concentrados em transportes e alimentos. Com alta de 4,59%, a maior desde julho de 2023 (4,75%), a gasolina exerceu a maior pressão individual sobre o indicador – sem ela, o IPCA teria avançado 0,68%e não 0,88%.
Ó dieselpor sua vez, subiu 13,9%, maior salto desde 2002quando avançou 14,63%. O combustível, no entanto, tem peso pequeno na cesta do IPCA, mas seus efeitos tendem a se espalhar pelos demais preços da economia devido à importância para os custos de transporte e frete.
O avanço de quase 2% da alimentação no domicílio, por sua vez, foi o maior desde abril de 2022 (2,59%). Itens como tomate (20,31%), cebola (17,25%), batata-inglesa (12,17%), leite longa vida (11,74%) e carnes (1,73%) tiveram as maiores variações positivas.
Gerente da pesquisa no IBGE, Fernando Gonçalves, avalia que os preços refletem não apenas uma restrição de oferta, mas também o encarecimento dos combustíveis. “Como a nossa produção é escoada em grande parte por rodovias e utiliza óleo diesel, o frete fica mais caro”.
Economista para Brasil do BNP Paribas, Laiz Carvalho já esperava números mais pressionados de combustíveis, mas a alta foi ainda maior.
“A guerra começou no fim de fevereiro. Desde então, a Petrobrás não reajustou a gasolina e o governo lançou algumas medidas para aliviar o diesel. O ponto é que os reajustes ao consumidor aconteceram ainda assim”, ressalta.
Já em relação à alimentação, ela explica que o avanço já era esperado, dado que no início do ano os preços seguiam muito deprimidos, desafiando a sazonalidade do período. “Essa volta, no entanto, veio um pouco mais forte e já começa a afetar a alimentação fora do domicílio. Além disso, a esperada fase mais benigna dos alimentos, que entrega números negativos entre maio e julho, fica um pouco ameaçada por causa do conflito” alerta.
Pontualmente, acrescenta o economista da AZ Quest, Lucas Barbosa, a alimentação também podem ter sofrido com um encarecimento das carnes, na esteira de um movimento de antecipação das exportações à China para escapar do início da adoção de cotas pelos produtores brasileiros.
A composição qualitativa, por outro lado, mostra números em linha com a expectativa, ainda que em patamares altos. Barbosa nota que, em relação às projeções anteriores ao início do conflito, a surpresa ficou basicamente concentrada em combustíveis, passagens aéreas e alimentos.
“Qual a mensagem? Ainda não há sinais claros de efeitos de segunda ordem para o IPCA. Os bens e serviços do IPCA que teoricamente não são afetados pela guerra, seguem em linha com o esperado, o que é uma boa notícia.”
Avaliação semelhante faz o economista-chefe do Sicredi, André Nunes. “As surpresas vieram espalhadas, mas com intensidade maior nos itens mais voláteis, especialmente combustíveis. Mas também houve surpresas positivas, como no núcleo de serviços subjacentes, que desacelerou de 0,64% para 0,49%, e os serviços como um todo, que passou de 1,51% para 0,53%”, pondera.
“Então, o IPCA de março veio ruim, como todos esperavam, mas os componentes mais cíclicos acabaram apresentando resultado positivo”, segue Nunes. “Os dados correntes devem reverberar para as projeções de inflação, vai ficar mais desconfortável, mas é importante ter noção do que é transitório e os efeitos de segunda ordem. “Então é necessário esse pente fino do BC, não subestimar a inflação mas também não travar a economia.”
Já o Itaú Unibanco aponta para uma piora generalizada na margem, ainda que a piora tenha sido concentrada em itens voláteis. “Na média móvel de três meses, com dados dessazonalizados e anualizados, os serviços subjacentes desaceleraram para 5,3% (de 5,4%), enquanto o núcleo de industriais subjacentes acelerou para 3,8% (de 3,3%).
Na mesma métrica, a média dos núcleos acelerou para 4,8% (de 4,2%). “Notamos pressão mais disseminada de forma geral. Não apenas o índice cheio veio mais forte, mas o qualitativo do dado também foi pior do que o esperado, com núcleos mais pressionados na margem”, diz o banco em relatório.
Laiz, do BNP, chama atenção para o fato de que, no acumulado em 12 meses, o IPCA subiu 4,14% em março, número bem distante da projeção da autoridade monetária para o período, de 3,6%.
“É uma diferença de 0,50 ponto já no começo do ano, em contexto de Focus piorando e muita incerteza em relação ao conflito no exterior. Para o BC, isso sugere ainda mais cautela”, diz.
Julio Barros, economista do Daycoval, acrescenta que o cenário pode ficar ainda mais adverso com as chances crescentes de um El Niño mais intenso no segundo semestre. “Reforça o viés de alta para a nossa projeção de inflação, atualmente em 4,2%, e corrobora expectativa de continuidade do ritmo de cortes em 0,25% no próximo Copom”, diz.
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