Os líderes políticos do Japão entraram em confronto em um debate realizado nesta segunda-feira (26) sobre temas como o alívio do aumento do custo de vida e a gestão do crescente número de residentes estrangeiros no país. A divergência expõe divisões às vésperas de uma eleição para a Câmara Baixa que deve ser disputada principalmente em torno de política tributária e coesão social.
O debate ocorreu no Clube Nacional da Imprensa do Japãoem Tóquio, um dia antes do início oficial da campanha para a eleição de 8 de fevereiro. O período de 16 dias entre a dissolução da Câmara Baixa, ocorrida na sexta-feira, e o dia da votação será o mais curto da história do pós-guerra do país, o que amplia o impacto de cada aparição pública dos líderes partidários.
No centro das discussões, que reuniu os líderes de sete partidos, esteve o imposto sobre consumo aplicado a alimentosem meio à contínua pressão dos preços mais altos de bens essenciais sobre os orçamentos das famílias. A primeira-ministra Sanae Takaichi prometeu reduzir a zeropor dois anos, a alíquota atual de 8%.
Takaichi, que também preside o Partido Liberal Democrata (PLD)no poder, reiterou seu apelo por um papel mais forte do Estado na proteção das famílias. Ela afirmou que seu governo apresentará um projeto de lei para reduzir o imposto sobre alimentos em uma sessão extraordinária do Parlamento no outono, caso haja acordo em negociações suprapartidárias. A líder também disse que pretende implementar a medida ainda no ano fiscal que começa em abril. Anteriormente, ela havia declarado que a ação deveria ocorrer “o mais rápido possível”.
Com o custo de vida dominando a campanha — foi a principal preocupação dos eleitores em uma pesquisa Nikkei–TV Tóquio divulgada no fim de semana — cresce a pressão sobre Takaichi para que apresente um roteiro mais claro. Ao mesmo tempo, temores de que gastos fiscais acelerados possam desestabilizar os mercados financeiros elevaram os juros de longo prazo e enfraqueceram o iene.
Na segunda, Takaichi rejeitou as acusações de que sua política fiscal seria responsável por esses movimentos. Ela acrescentou que o governo adotará medidas contra operações especulativas e “continuará a comunicar de forma clara que está levando plenamente em conta a sustentabilidade fiscal”.
Os sete líderes partidários concordaram quanto à direção geral de aliviar a carga tributária, embora tenham divergido sobre o alcance e o momento das medidas.
Yoshihiko Nodacopresidente da recém-formada Aliança Reformista Centrista (CRA, na sigla em inglês), defendeu que a eliminação, sem prazo definido, do atual imposto de 8% sobre alimentos seria a resposta mais eficaz. O partido propôs garantir recursos com a criação de um novo fundo soberano.
“Precisamos especificar claramente as fontes de financiamento e trabalhar para que isso (o corte do imposto) aconteça até o outono”afirmou Noda.
Em resposta, Takaichi criticou a proposta da CRA de recorrer a ativos como o fundo de reserva das pensões do Japão e a Conta Especial do Fundo de Câmbioargumentando que o plano é “irrealista”. Segundo ela, mesmo que fosse criado um veículo separado, ele seria “pequeno demais para servir como fonte estável de financiamento” para tornar permanente o corte do imposto sobre alimentos.
A eleição será um teste importante para Takaichi, que é a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Japãoe para a capacidade de sua coalizão governista de obter um mandato sólido. No entanto, seu nível de apoio popular, embora ainda elevado, começou a ceder três meses após a posse. A pesquisa do fim de semana mostrou a aprovação do gabinete em 67%queda de oito pontos em relação a dezembro. A taxa de desaprovação subiu para 26%.
A questão dos residentes estrangeiros também surgiu como um importante ponto de tensão no debate, refletindo a crescente inquietação entre conservadores, mesmo com o Japão dependendo cada vez mais de trabalhadores estrangeiros para compensar o declínio populacional. Na semana passada, o governo finalizou um pacote de políticas voltado a endurecer a fiscalização sobre residentes estrangeiros. Os residentes permanentes representam cerca de 20% dos quase 4 milhões de estrangeiros no país.
O plano inclui a ampliação do tempo mínimo de residência exigido para a naturalizaçãode “cinco anos ou mais” para “10 anos ou mais”deortalecimento da triagem para concessão de residência permanente e o combate à inadimplência de impostos e contribuições à seguridade social.
O tema ganhou ainda mais destaque após declarações de Sohei Kamiyalíder do partido populista de extrema direita Sanseitoque defende limites rígidos à imigração.
Questionada se imporia cotas numéricas, Takaichi apontou para medidas já em andamento, como o plano de “tolerância zero a imigrantes em situação irregular” e o endurecimento dos critérios para residência permanente e naturalização. Ela afirmou que seu governo estabelece “uma linha clara” entre essas políticas e a xenofobia.
Mesmo dentro do campo governista, surgiram alertas sobre o risco de retórica divisiva. Fumitake Fujitacopresidente do Partido da Inovação do Japão (parceiro menor do PLD na coalizão) advertiu contra políticas “movidas pela emoção” em vez da lógica, afirmando que enquadrá-las em termos de exclusão pode aprofundar divisões sociais.
Fonte: Nossos parceiros
